Livremente apropriado da obra de André Sant’anna, que é um gênio.
Fui por indicação de uma conhecida, tipo de pessoa que em verdade pouco te conhece, que, por sofrer do mesmo problema que eu, havia frequentado o lugar e se curado completamente em poucas sessões. E não é de se desconfiar? Eu até perguntei para ela como as coisas aconteciam por lá, se eles tinham algum método, o que eu devia esperar… Mas ela evitou dar qualquer tipo de informação, alegando que eu me surpreenderia, enfática e orgulhosa. De fato, me surpreendi muito.
Ao contrário de outros grupos de recuperação, este não prezava tanto pela discrição do espaço. Na porta de sua sede no centro da cidade, cujo aluguel aparentava custar um valor abusivo, havia uma placa, em amarelo e azul claro, com a sigla CCLCET. Abaixo da sigla, a explicação de seu significado.
– Boa noite! – tinha acabado de sair do escritório, carregava na língua a ressaca do trabalho e na boca o gosto do trânsito – Bem-vinda ao Centro de Curas e Lutas contra o Estresse e a Tensão! Como posso ajudá-la?!
– Eu gostaria de me iniciar – a frase despejou-se naquela mulher, depois de sair da minha boca de forma obtusa. Eu até a ensaiara, dissera uma série de vezes em todos os espelhos da minha casa, de forma a tentar me convencer de que seria possível dizê-la a alguém. Obviamente fui orientada pela conhecida a falar desta forma, a dizer isso, ela afirmou que eu demonstraria ter sido indicada por alguém e que isso seria positivo para o meu ingresso, ou melhor, minha iniciação.
A recepcionista, que já havia me recebido com um sorriso dum branco ofuscante, esgarçou ainda mais sua boca ao ouvir a frase que eu pronunciara e eu tive a impressão de que seus lábios iriam sangrar.
– Perfeitamente! – disse-me, e guiou meus passos até uma sala, tão resplandecente quanto seu sorriso, em que um grupo de pessoas parecia estar me esperando há anos.
Quando pisei na sala, fui recebida por uma salva de risadas. Sim, uma salva de risadas, a princípio achei que algo de muito cômico havia ocorrido e comecei a rir também, de modo a não me constranger. Passou pela minha cabeça que eu poderia ser o alvo das risadas, o que de fato era.
– Seja bem-vinda, colega! Fique à vontade! Meu nome é líder-simpática-ao-ponto-de-ser-histérica e eu sou a organizadora deste grupo de curas e lutas contra o estresse e a tensão! Seja BEM-VINDA! – eu tinha a impressão de alguém a havia avisado que eu chegaria, que ela sabia que eu ia entrar por aquela porta e estava atrás dela esperando para me dar o bote – O que você acabou de presenciar foi uma salva de risadas! Tenho certeza de que logo logo você vai se acostumar com os nossos métodos! Seja bem-vinda, fique à vontade!
“O dia em que eu aprendi o que é uma salva de risadas”, esse podia ser o título deste relato, caso o que se seguisse a este momento não fosse ainda mais espantoso do que este fenômeno, se assim podemos chamá-lo. Mas, antes que eu prossiga com este enfado, preciso tecer algumas observações: obviamente a organizadora daquele grupo, dentre os muitos outros que existem no prédio do CCLCET, não se chamava líder-simpática-ao-ponto-de-ser-histérica, este é o nome com a qual eu a batizei. Fiz isso porque não sou capaz de me lembrar do nome de todos os “colegas” do grupo, forma pela qual são chamados os participantes. Porém, mesmo que fosse, não poderia aqui citá-los, uma vez que não devo comprometer o código de discrição do grupo, que diz que devemos manter intactas as identidades dos participantes, ou melhor, colegas. Sendo assim, alerto para o fato de que foram criados por mim nomes para cada um dos colegas e que estes, por sua vez, baseiam-se única e exclusivamente em minha sincera impressão sobre aquelas pessoas.
– Agora que ela está encaminhada, retiro-me! – disse a recepcionista, e foi ovacionada por outra salva de risos.
– Obrigada! Muito obrigada, recepcionista! – disse a líder-simpática-ao-ponto-de-ser-histérica – Sente-se conosco – eu a segui e sentei em uma cadeira disposta em um círculo de cadeiras. – Para que você se sinta mais à vontade, pedirei para que algum de nossos colegas te apresente o grupo!
– Nós podemos apresentar o grupo! – disse uma jovem mulher que se levantou acompanhada de um jovem rapaz.
– Com todo prazer! – disse o jovem rapaz.
– Eu também posso, se for o caso! – disse a ruiva-gostosa-histérica.
– Como preferir! – disse o casal.
– Não, perdão! Vão vocês, fiquem à vontade! Vocês disseram primeiro!
– Ah, mas nós sempre apresentamos o grupo! Por favor, sinta-se à vontade você!
– Não!
– Não!
– Vocês!
– Você!
– Vocês!
– Você!
– Por favor!
– Vá em frente.
– Vão em frente.
– Por favor!
– À vontade
– À vontade, por favor!
– Por favor, por favor, por favor!
– Você, você, você!
– Mas eu apresentei da última vez! Não foi?
– Foi…
– Não foi? Não foi? Eu tenho achado interessante isso de apresentar, de me apresentar, sabe? Me apresentar! Mas eu apresentei da última vez, fui eu! Não tem por que, não tem por onde, fique à vontade, vá! Que é isso. Vão! Podem ir. Vão em frente. À vontade. Vocês. Por que não? Vocês disseram primeiro. Não há problema. São um belo casal! Vão! – a ruiva-gostosa-histérica interrompe sua fala e se dirige ao banheiro. Há um silêncio. Todos a acompanham enquanto entra no banheiro. Ouve-se barulho de vômito.
O casal-engajado-simbiótico-histérico interrompe o silêncio com seus risos solares e um enérgico “sinta-se à vontade, colega”. Eles me explicam que naquele grupo o bem-estar vem em primeiro lugar, de forma que apenas deveriam dar seus depoimentos aqueles que se sentiam à vontade. Dizem o quão importante é expressar os nossos sentimentos para os outros e que os outros, eles, estão dispostos a ouvir e ajudar da forma como pudessem.
– E – disse ela de forma pedagógica.
– Para que você se sinta à vontade – disse ele de forma pedagógica.
– Nós vamos dar início a essa sessão contando para você o estágio de nossa recuperação – disse em coro o casal-engajado-simbiótico-histérico.
– Estamos em um dos mais avançados graus de recuperação – disse ela.
– Nossos nódulos já estão praticamente todos dissolvidos – disse ele.
– Nódulo é o nome que demos para as protuberâncias causadas pelo acúmulo de estresse.
– Cada um neste grupo acumula nódulos em diferentes lugares de seu corpo.
– Nós, por exemplo, acumulamos os nódulos em nossos olhos! Está vendo? – exibiam seus troféus.
– Eu acumulo nos seios! – disse prazenteira a ruiva-gostosa-histérica, que acabara de voltar do banheiro. De fato, tinha seios enormes.
– Houve um momento em que quase ficamos cegos… – um tom melancólico os invade repentinamente. Silêncio. A melancolia dura pouco, como era de se esperar, e eles recitam as próximas frases num crescendo que estoura em fúria, ou o que se chama de euforia.
– Mas…
– Graças a CCLCET….
– Hoje…
– Estamos quase…
– Curados!!!
Salva de risos.
Eu acumulo essas bolotas de tensão em minha mão, essas que eles chamam nódulos, mas não tive de dizer isso para ninguém, estavam bastante visíveis.
– Aqui, tratamos os nódulos com risadas!
– Está comprovado que rir dissolve os nódulos!
– Por isso damos salvas de risos!
E o grupo deu uma salva de risos por aquela explicação. Aliás, como eu já disse, eu poderia me estender contando sobre o caráter grotesco daquela demonstração histérica. Mas acredito que apenas a sua existência já causa o grau de espanto necessário para esse relato.
– Esperamos que você se sinta à vontade para contar conosco!
– E, sempre que precisar, lembre-se: rir é o melhor remédio!
Pelo menos se eles rissem mais baixo.
– Acabou? – disse o obeso-assimétrico-histérico após uma pequena pausa do grupo. Ele não parecia tão eufórico quanto os outros. Ninguém respondeu – Então acabou não é? Tá bom! – acumulava nódulos no lado esquerdo da barriga. – Bom, agora que a sessão começou, eu quero dar o MEU depoimento!
– Sinta-se à vontade, sinta-se bem! – disseram todos em coro. Este parecia ser uma espécie de bordão do grupo, ou melhor, uma frase de incentivo, para quando alguém desejava dar seu depoimento.
– Minha recuperação estava indo muito bem, as pessoas praticamente já nem notavam mais os meus nódulos! Estava tudo muito bem! Acontece que essa semana eu fui despedido, é, eu fui despedido. E eu fui despedido porque todas as vezes em que eu ficava muito, muito puto com algum desgraçado no trabalho…
Sua fala foi interrompida pelo homem-pálido-histérico, que disse:
– Acalme-se, colega. Lembre-se de que as palavras de ódio estimulam a tensão e contaminam o grupo! Que tal respirar? Vamos todos dar aquele respiro profundo? – o grupo se levantou e, de forma sincronizada, inspiraram e expiraram, soando alto os pulmões e fazendo movimentos eloquentes com os braços e o troco. O homem acumulava nódulos no cu. Soube quando vi que sentava-se em um acento extra localizado sobre o acento da cadeira.
– Ok. Tá bom, tudo bem! Eu estou mais calmo. Mais calmo… – pausou, respirou profundamente outra vez e retomou sua fala muito pausadamente – Pois eu… fui despedido… porque… todas as vezes… em que… me irritava… com alguém… começava a rir. – a sua própria lentidão parecia irritá-lo – Assim como eu fui orientado a fazer aqui, não é?! Como todos vocês, não é? Certo? Eim? Certo? Não é isso? Falem…
– Correto! – disse a líder em um tom acima do adequado.
– Só que acontece que nem sempre aqueles babacas… nem sempre as pessoas entendem que você sofre de estresse e tensão! E aí, quando eles não entendem que você é um viciado em estresse…
– Dependente, porra! – interrompeu a baixinha-cocainômana-histérica.
– Sem palavrão! – gritou o homem-pálido-histérico.
– Saco!
– Ok! Dependente! Dependente, dependente!
– Então eu não posso falar que eu sou viciada? Por que eu não posso falar que eu sou viciada? – disse a ruiva-gostosa-histérica que, naquele momento, demonstrou não estar habituada ao regulamento da CCLCET – Eu sou viciada!
– Olha, veja bem, são regras da casa. Não se deve. Não é adequado. Tem um motivo pra não ser adequado. Mas a gente não vai poder se estender… falando sobre isso agora… não vai… – disse a baixinha-cocainômana-histérica.
– Não vamos! Não vamos mesmo porque quem está falando agora sou eu e eu pretendo terminar o meu depoimento! Pode ser? – pelo tom da pausa, ele decide continuar – Então, mas os caras não entendem, não entendem que eu estou tentando me recuperar! Eles são todos uns dependentes feito eu, todos uns dependentes sujos! Acontece que eles não tão tentando se recuperar que nem a gente, eles não conseguem aceitar a dependência! É isso sim! Você tem que aceitar o vício em estresse! Que você adora ser um estressado sujo! Você tem que conversar com os seus nódulos! Você tem que entender seus nódulos, seu viciado de merda! Aí, o que acontece? Acontece que eu começo a rir nos momentos de estresse, a morrer de rir… E olha que eu me seguro, olha que eu só começo a rir se eu tô muito, muito estressado, muito estressado! Sabe quando você fica estressado e não consegue se aguentar… – nesse momento o nível de tensão do obeso havia contaminado a todos. Uns roíam as unhas, outros balançavam as pernas, outros riam involuntariamente e houve quem saísse da sala para rir alto, voluntariamente – Aí, quando eu começo a rir, eu rio muito, muito alto! Eu rio muito alto! Eu rio tão alto que minha risada parece um grito que tava entalado e todos se assustam! Eu fiz uma secretária chorar! Eu fiz a porra da secretária chorar! É isso que eu faço e eles não gostam! Eles não gostam de me ouvir dar risada! Eles detestam a minha risada! E, como se fosse pouco, o que foi que aconteceu essa semana?! Eim? A empresa, porra, começou a perder dinheiro! É, todo mundo se fodeu! Aí, o que é que acontece quando todo mundo se fode, eim? Quando tá todo mundo fodido? O estresse, a porra do estresse e a tensão estouram! Eles crescem pra caralho! E sabe o que vem depois? Vocês sabem, né? Depois eu começo a sentir prazer naquilo, um prazer incontrolável em tentar sair do buraco, prazer por estar no fundo do poço, fodido, tentando subir, batendo a cabeça e me contorcendo! Um prazer tão fodido que a minha cabeça começa a ficar quente, parece que meu cérebro tá inchando… Parece que meus olhos vão saltar dos glóbulos e enforcar o pescoço da vadia da secretária! Depois disso, quando eu tô no auge do estresse e minhas orelhas tão pegando fogo, eles vem me dizer que eu tenho que ficar calmo! Que vai dar tudo certo, que eu vou achar uma solução pra empresa! EU! EU! HÁ-HÁ-HÁ-HÁ-HÁ-HÁ-HÁ! Eu dei risada, eu dei risada, eu morri de dar risada! Eu fiz o que eu devia fazer, não é? Dar risada! Eu dei risada na cara de todos eles! Saí pela empresa dando risada! Foi por isso que me demitiram, aqueles porcos, porque eles não sabem como é bom dar risada!!
Silêncio
– Bom, acho que está na hora do intervalo, não é? – disse tremendo a líder-simpática-ao-ponto-de-ser-histérica.
Eu agradeci pelo timing da estressada mais experiente que eu já conheci, recolhi minhas coisas e sai absolutamente desapercebida por aquelas pessoas que, naquele momento, estavam entorpecidas demais para me perceber. Cheguei em casa, esquentei o café, olhei para minhas mãos e vi, vermelho, mais um nódulo para minha coleção.
Foto: Suhellen Dolenga / Texto: Natália Zuccala
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N. Zuccala, 23, nascida e residente em São Paulo. Estuda letras na Universidade de São Paulo com habilitação em Grego Antigo e Português. É professora de Língua Portuguesa e Literatura na Escola da Vila. Como escritora, dedica-se a prosa e ao teatro.
