A cidade é uma fantasmagoria. A cidade toda é uma fantasmagoria sempre tremulando por causa das águas em torno. As águas refletindo as luzes, pontes, máscaras, ruas estreitas, casas, igrejas, palácios e os vidros das janelas, com seus gatos preguiçosos, carregadas de petúnias, espelhando as águas. A cidade está em movimento sempre, mesmo dormindo. É feita de transparências bruxuleantes. Tudo é brilho como na pintura a óleo. Tudo é reflexo no jogo de claro-escuro do movimento das águas. Ela é inconstante mas não como as outras cidades. Veneza acende a noção de inconstância dentro do seu observador. Suas ruas, mesmo as sólidas, são fluídas em suas imagens refletindo-se mutuamente. Veneza é como um estado de embriaguez permanente. Tudo é vertigem no abraço de seus fulgores trêmulos. Tudo confundindo-se como num jogo de espelhos. O passo hesita em Veneza. A água transformando tudo o tempo todo, canal em rua, rua em canal. Em Veneza, a alma não sabe ao certo onde o sólido onde o líquido.
Vejo meu próprio olho direito aberto no espelho da parede oposta. Encaro sem vontade a insuportável simetria invertida dos espelhos. O espelho é um objeto desleal. Ele invade o olhar, mesmo o de quem não busca sua imagem. É diferente da fotografia, que convida o olho. Na estante, todas as minhas câmeras fotográficas, há muito paradas, continuam meticulosamente organizadas por data de aquisição. No espelho, meu rosto parece um ser mutável, cada ângulo revelando uma verdade contraditória. Meu olho no espelho, ao lado da cidade nascendo na janela. O dia vai cobrindo os objetos no quarto de cinza como se fosse uma camada de fuligem.
Eu tenho na parede do quarto uma grande fotografia de um dos canais de Veneza. Antiga viagem que deixou toneladas de fotografias e a memória viva da outra. Veneza tem seus paradoxos: uma cidade que parece emergida das águas, submergindo. Submergindo de volta para a origem. A revelação ilusória dos seus múltiplos reflexos como um grande calidoscópio de águas. A imagem nascida de outra imagem numa combinação infinita de formas e cores no espaço finito de uma ilha, rodeada de outras ilhas. A fotografia que tenho na parede da sala fui eu que fiz. Mas fotografar Veneza é como escrever uma análise fictícia de uma narrativa inexistente. Olha-se sempre para o objeto que não está. Eu fotografei diversas vezes os mesmos objetos em posições diferentes sem nunca encontrar por completo. A essência da cidade escapa repetidamente por entre canais intermináveis de busca. Veneza se deixa ver de tantas formas que se torna impossível enxergá-la. A cidade esconde aquilo que é atrás do brilho polimorfo de suas máscaras. Há 15 anos, quando fiz essa viagem, eu ainda era uma estudante de fotografia pensando encontrar essências nas imagens. Eu não sabia ainda que a fotografia é só mais uma ficção sobre o real. Em Veneza, o olho ilude-se o tempo todo.
Curitiba é outra coisa. É o contrário. Tudo é opaco. Em Curitiba, é como se o céu fizesse sombra sobre a cidade. O cinza de tudo se une ao cinza das coisas formando uma barreira impenetrável ao olhar. A cidade não se deixa ver. Tudo se esconde por entre seus tubos que são como conchas abandonadas há milênios sobre as pedras de um deserto inteiro fossilizado. Ela é como uma folha caída sobre um planalto, imóvel, depois que o vento passa. Envelhecendo e apodrecendo sozinha. Transformando-se, na ausência e no silêncio, sem ninguém ver. Vivendo apenas de cotidiano. Na mais profunda timidez. Sem exuberâncias ou brilhos. Realidade em estado puro. Feita de contenções anti-oníricas. Mas com seus paradoxos também. Tão orgulhosa de seus realismos que o seu observador se pergunta se é possível uma cidade sem forma. Sem imagem, nem real nem fictícia, de si mesma. Uma cidade ausente até dos livros, com seus narradores que andam e tomam café em lugar nenhum, que falam de lugar nenhum, que sonham com outros lugares. A cidade inexistente porque ainda não foi criada. Apenas existindo no seu real cotidiano. Tão cotidiana que esconde suas inverdades (e também as verdades) atrás das camadas de cinza opaco. Não reflete nada; não é nada; é só uma cidade. Tão real que parece não permitir ser imaginada. Ou desejada. Tão real que só pode ser mentira.
Eu fotografo Curitiba desde que ganhei minha primeira máquina fotográfica, uma Kodak Instamatic 155 X, com cubo de flash entre o disparador e o visor, para filme 126, que ganhei de meu pai quando ele comprou uma Canon nova. Aquele foi o gesto mais delicado que ele conseguiu me dirigir durante toda a sua vida. Foi uma época feliz. A cidade parecia caber inteira na minha máquina de fotografar. Depois, na faculdade, passei pela fase da câmera pinhole porque todo mundo tinha que usar uma, tinha que fabricar uma. A mão buscando precisão na ponta da agulha para fazer a entrada da luz. Fotografia in natura. O encanto de ter nas mãos, até dentro de uma lata, por exemplo, a mágica da imagem invertida. Ilusão de ótica. A dificuldade estava em, para se obter foco, acertar com precisão o tamanho do furo de entrada da luz. Isso não é uma dificuldade só da fotografia. Excesso de luz cega tanto quanto a falta dela.
Os brilhos e reflexos de Veneza confundem tanto quanto a opacidade de Curitiba. Ver é difícil, é uma habilidade de poucos. Se eu quisesse fazer a linha de tempo da minha vida poderia dividi-la em épocas marcadas pelas câmeras fotográficas que tive. Com a pinhole, eu estava interessada nas distorções que se pode produzir em cada imagem. Foi quando entendi que Curitiba não era o que parecia. No meu laboratório improvisado, dentro do banheiro do apartamento, eu ficava surpresa com a cidade que eu via toda vez que eu tirava a fotografia do revelador. Mas eu tinha grande dificuldade em acertar o tempo do fixador. Com frequência perdia as imagens depois de algum tempo e a cidade começava a me escapar. A cidade voltava a ser invisível.
Quando a turma de fotografia da faculdade voltou da excursão à Itália fiquei admirada de ver que a cidade que meus colegas captaram era outra. Nas suas fotografias aparecia uma Veneza que eu não tinha visto. Nas minhas fotografias também havia uma cidade que não existia para eles. O olho mágico e ilusório da câmera transformando tudo e criando cidades. É claro que também adotei os recursos digitais. O contrário da pinhole. Experimentação posterior ao momento da captação da imagem. Também a Lytro: ferramenta para construir e desconstruir a cidade pelo foco. Uma cidade sem foco é como um nevoeiro noturno dentro de um olho míope. É uma cidade que só acredita que existe, mas não tem a comprovação. Uma cidade separada da sua imagem é apenas um mapa.
Percebi então que a fotografia não era apenas revelação, era construção. Cada imagem podendo revelar algo secreto, não visto a olho nu na realidade, ou construir o real. De repente, fotografar tornou-se insuportavelmente assustador para mim. A ideia de ma máquina capaz de construir realidades assombrava-me. Mas também a revelação do secreto passou a perturbar-me porque, talvez, aquilo que está escondido não seja mesmo para ser visto. O olho da fotografia mostrando mais do que podemos suportar da realidade. Deixei de lado todos os meus diferentes modelos e tipos de câmera por um tempo.
A outra não parou de fotografar. Há nela algo de obsessivo mesmo. A velocidade com que lança os disparos no botão da máquina. O olho sempre dentro do visor. Eu a encontrava poucas vezes durante as aulas e palestras. Ela não participava do grupo de pinhole. Ela parecia andar sempre fora da onda do momento. Tinha um modo muito independente e andava sozinha. Então, nossa relação existia apenas na minha observação dela. Sempre me chamou a atenção a destreza com que seus pequenos dedos esguios manipulavam rebobinador, velocidades do obturador, disparador, zoom, aberturas da lente. Mesmo quando todos na turma ainda eram iniciantes ela já demonstrava grande habilidade com o equipamento.
Ela estava em Veneza. Mas, engraçado, eu a vi poucas vezes. É como se não tivesse estado no mesmo avião, como se já estivesse lá. Essa outra, que eu costumava ver raramente, tinha, porém, uma presença impactante. Quando eu a via sua imagem tinha efeito hipnótico e brutal. Tudo se interrompia em mim quando eu percebia sua presença. Uma figura marcante e, em tudo, diferente do que sou, quase uma imagem oposta. Essa diferença profunda seja, talvez, o motivo de tamanha força de atração. Nossas diferenças não estavam tanto na aparência, mais ou menos mesma altura e tipo físico, cabelos castanhos, mas na personalidade. Enquanto eu tenho uma atitude pálida diante dos outros, a outra carrega com ela uma intensidade difícil de transformar em palavra. Luminescência que nasce do escuro mesmo. E eu camadas de opacidade.
Eu estava em Veneza. Na minha frente havia uma daquelas janelas floridas, de flores rosas e brancas. No vidro, via-se o reflexo do perfil sombreado da cidade contra um céu laranja e rosa de fim do dia. Na janela, do lado de dentro, um livro aberto deixado sobre o parapeito. Posicionei-me de modo que meu próprio reflexo não se sobrepusesse ao retrato da cidade. Quando eu estava prestes a pressionar o disparador da máquina a imagem de outra pessoa apareceu sobre o vidro da janela. Era ela. Olhou-me, através do reflexo, direto para a lente da câmera. Desviei o olhar do visor e nos encaramos por um minuto através do reflexo da cidade no vidro da janela com o livro pousado. Baixei os olhos em direção à câmera fotográfica que eu segurava próxima do estômago. Virei-me em busca da outra que aparecia daquele modo virtual na cena. A outra já não estava. Procurei em torno. Ninguém. Apenas pontes e ruas em curva e águas balançando sombras. Não fiz a foto. Mas aquela imagem, não registrada, é minha memória mais presente da cidade. A janela onde cabia um mundo inteiro. Todas formas simultâneas naquela tela analógica que revelava uma cidade mais verdadeira do que a que eu tinha às costas. Uma imagem concentrada da cidade de Veneza com a outra olhando. A cidade dentro dos olhos dela.
A fotografia que não existe teria sido a mais interessante de todas. Sei que preciso ir em busca da imagem ainda não revelada, aquela que concentra tudo o que é preciso num único quadro. Levanto num salto. Atravesso o corredor. Vou ao MON, decido na hora. Tenho na parede da sala uma enorme fotografia do MON. Curvas, rampas, vãos, rampas em curva e o olho. O olho cego. Olho cegado não por uma fina ponta de agulha que lhe abrisse um furo de escuridão. O contrário da pinhole. O olho cegado, talvez, por blecaute dos desejos. O olho cego como se recusasse olhar Curitiba. O olho da recusa. Olho que não quer ver nem a cidade feita de incêndios. Curitiba de céus vermelhos com dourado com suas araucárias que são como candelabros acesos sobre a massa verde escura dos matos, camuflando belezas com o mistério de uma neblina densa e fria, encobrindo-se inteira de aparências. Desço pela rampa branca. Através dos vidros do museu, vejo uma trupe de mímicos com seus gestos hiperbólicos e saio para o vão. De repente, estou cercada. Eles dançam, batem palmas mudas e gesticulam palavras. Tão mais fácil do que de fato dizer as palavras. Um deles oferece-me uma rosa invisível. Aceito. Decido tirar uma foto. Tripé. Câmera. Convidam-me a dançar também. Eu danço. O moço da rosa dança comigo. Ele cerca-me num gesto exagerado de abraço. Eu danço e ouço o disparo da máquina. Quando olho a foto fico paralisada. Quem aparece nela é a outra.
Foto: Bruno Duarte Sampaio / Texto: Isadora Dutra
Isadora Dutra: formada em jornalismo e doutora em Teoria da Literatura, é professora de literatura e textos jornalísticos.