TAIKO

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Ir e vir sem saber quando acaba. O fim é para alguns o começo e vice versa. Uma sombra de multidão no teto.  Avisos de parada. Indicação de saída para todos os lugares, menos de si mesmo. Salto afiado nos pés, o batom oculto na bolsa. O outro lado parece uma vitrine de gente sem pose nem etiqueta. Alguns se defendem, outros mastigam os lábios, falam sozinhos. Cotovelo no queixo, mãos cravadas na coxa. Demarcação roxa na pele. Trocamos de corpo entre uma viagem e outra. Um homem com uma batalha celestial no braço segura a haste de metal que o separa do buraco. Há dias em que a boca pede e a mão esmola. Sono instantâneo em assentos reservados. No alto falante: “Ficar sempre atrás da faixa amarela”. Outro dia descobri um microfone pendurado perto do elevador. Há passagens secretas no subterrâneo. Gladiadores surgem das paredes. Roupa preta, cassetete em punho, algema e rádio na cintura. Os polegares estão quase sempre virados para baixo. São muitos os imperadores. Nunca vi sangue, vencem pela hemorragia interna. Quando termina a luta desaparecem no concreto. Você sente que está sendo seguido, mas é só a movimentação das câmeras nas suas costas. A TV no subsolo é silenciosa. Imagens e legendas entre apitos de portas fechadas sendo abertas. A vontade é andar de quatro como um símio e saltar entre os ombros. Rostos colados no vidro enquanto alguém despenca.  Nenhuma sinalização para este destino. Bailarino paralisado pela metade. Uma parte fica no cimento, a outra dança. Mar de luz ao redor. Rodopios em espaço apertado. Paredes úmidas, lágrimas de reboco em azulejo branco. Inundação com cheiro de limpeza. A cadeira, a muleta, minhas costas.  Teu corpo inteiro sorri enquanto você chora. Máquina amante. A vida insiste. Homem invisível com um tambor no peito.  É noite. Trocamos de corpo entre uma viagem e outra. Fico longe da faixa amarela. O dia continua acontecendo aqui dentro. Vagões escondidos. Minhas portas abrem e fecham sem aviso. Deixei uma mensagem gravada no elevador para você.

Foto: Matheus Cappellatto / Texto: Dione Carlos

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Dione Carlos é: Nascida no Rio de Janeiro vive em São Paulo desde os 19 anos. Cursou Jornalismo, Psicologia e Medicina Veterinária. Descobriu no teatro sua vocação. É dramaturga. Trabalha de forma autônoma com Cias de teatro

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