Sigo me sou caminho disse, quando deitei o meu primeiro pé na rota. Uma ruela. Sigo me sou destino. Disse-me aquilo. Aquele bicho que eu encontrei a porta daquele caminho e se foi. Eu encontrei um bicho na porta de um caminho que eu empeçava a começar e ele me disse, como se bichos dissessem, o que eu devia fazer.
E eu posso dizer por poder jurar que era um bicho. Um bicho do tipo que fala. Há bichos e bichos. Há bichos que são grandes, pois este é o que não era. Este era bicho baixo. Quando um pai tem um filho, e o filho é grande, ele costuma dizer: meu filho é comprido. Acontece que ser humano não é comprido, ser humano é alto, mas, por criança ser muito mais bicho do que ser humano, criança não é alta, criança é comprida, porque vive de horizontal. Então aquele bicho não era comprido, ele era pequeno e não vivia na horizontal.
Se fosse um cachorro eu diria: era um cachorro que falava, acontece que não era. Tava mais pra um leão meio pássaro com cara de mulher, só que do tamanho de um cachorro pigmeu. Como se não bastasse não ser um cachorro, meio leão meio pássaro com cara de mulher.
Quando eu deitei o primeiro pé naquela ruela onde eu quis por muito tempo pôr a boca, quis pisar descalça, o bicho já estava lá e me disse, aquilo. Eu estava indo aonde não se vai, que é exatamente aonde se vai sozinha, em direção ao que se quer de verdade, não ao que se acha que se quer. Te digo. Eu estava indo aonde eles dizem que não se deve ir porque quer-se muito, não estava indo aonde se quer ir muito porque eles dizem que não se deve ir. Não se deve porque eles dizem que não se deve. Mas eu e minha boca queriamos muito e não se deve ir onde se quer muito. Há de haver um problema em se querer muito.
Pequena era eu, eu não era comprida. Baixa diziam que eu era. Eu. Tá aí, meus pais não deviam dizer de mim: ela é comprida, mesmo na horizontal, diziam que eu era baixa e me diziam: não vá lá, não se deve ir lá. Os meus pais. Nunca fiquei alta, mesmo um pouco menos pequena depois, depois de ter ficado um pouco mais grande como eu sou agora, quase grande, eu ainda não devia ir lá. Ainda não, baixinha.
É verdade que eu havia me doído muito antes de decidir por definitivo botar a minha boca por aquele caminho, a rua onde não se devia ir justamente por se querer muito. Eu sabia também que o querer muito muito entrar por aquele caminho não ia passar em mim, nem jamais, ia ser uma vontade pra sempre de deitar o pé naquele caminho, sedenta. E foi por isso mesmo que eu decidi ir, entrar de boca naquele lugar e fazer com os dedos o que eu queria muito muito fazer. Quando ele me disse aquilo de que eu tinha de fazer o que eu tinha de fazer e que mais ninguém podia fazer aquilo que eu queria – porque é isso, mesmo sem ele ter dito: o que a gente quer muito muito fazer é aquilo que só a gente quer e, no final, é o que compõe o ser a gente mesmo e a gente tem que fazer; porque a gente não empresta a nossa boca pros outros sentirem pra gente – então eu decidi que ia seguir mesmo a ruela daquele caminho, que eu entrara querendo.
Toda vontade enorme de entrar lá e fazer o que eu queria fazer me esquentava os aparelhos que eu tinha por dentro, remexia ademasiado a minha barriga, que dava umas voltas. E quando eu pensava na minha própria vontade o meu rosto esquentava, eu sentia que os meus olhos não davam de ficar mais ali, onde estavam acostumados a ir, que eles tremelicavam. Ficava de um lado eu, do outro lado o de dentro, apartado: a minha vontade.
Eu fui, foi nisso que deu minha vontade, eu corri, descabida por aquela rua. Decidida do que queria provar com a minha própria boca e mastigar e experimentar e lamber. Eu corri aquele caminho inteiro, cheguei toda esfolada na porta de entrada. Eu entrei ali sim, cega da minha vontade, e já via tudo provando com a boca, ansiosa, até a maçaneta da porta eu provara. Já dentro, toda cheia, deitei a minha boca no corpo e fiz o que eu tinha que fazer. Pequena eu, baixa, tinha uma boca grande que provava e que dizia: Sigo me sou destino, quando perco me perco.
Foto: Matheus Cappellato /Texto: Natália Zuccala
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N. Zuccala, 23, nascida e residente em São Paulo. Estuda letras na Universidade de São Paulo com habilitação em Grego Antigo e Português. É professora de Língua Portuguesa e Literatura na Escola da Vila. Como escritora, dedica-se a prosa e ao teatro.

Fotos especiais com textos extraordinarios!
Obrigada Rosi, abraços!